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Bancos ajustam provisões com nova regra contábil

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Bancos ajustam provisões com nova regra contábil — Bancos aumentam provisões para crédito sob o padrão IFRS 9. Entenda como a nova regra impacta concessões financeiras.

Mudanças nas normas contábeis que entraram em vigor em 2025 levaram o setor bancário a reforçar o volume de recursos destinados a cobrir possíveis perdas em suas carteiras. A adequação ao novo padrão ainda está em andamento, tendo impacto direto na forma como os riscos de crédito são avaliados.

Sob responsabilidade do Banco Central, as novas diretrizes ajustam as práticas brasileiras ao padrão IFRS 9, adotando o conceito de perdas esperadas em lugar das perdas incorridas — um cenário que afeta tanto a estrutura de balanços como o apetite para concessão de crédito.

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Adoção do IFRS 9 e seus impactos diretos

A implementação do IFRS 9 modernizou o modelo de provisões, aproximando o país das normas internacionais já consolidadas em mercados desenvolvidos. A nova regra altera a forma como as instituições financeiras contabilizam os riscos associados aos instrumentos financeiros.

Antes da mudança, os bancos provisionavam quando o cliente já apresentava inadimplência clara. Agora, com base no cálculo de perdas esperadas, passam a reconhecer o risco antes mesmo de ele se concretizar. Isso exige modelos estatísticos mais avançados e maior capacidade de avaliação da conjuntura econômica.

O Banco Central registrou que, entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025, o nível de provisões aumentou de 5,7% para 7% da carteira de crédito. Esse patamar foi mantido ao longo do primeiro semestre, evidenciando a pressão sobre a estrutura de capital dos bancos, especialmente os de médio porte, que ainda enfrentam desafios de adaptação operacional.

Enquanto os grandes bancos já vinham utilizando modelos semelhantes, beneficiando-se de maiores recursos tecnológicos e equipe especializada, as instituições de menor porte enfrentam maior impacto. Muitas ainda ajustam seus processos internos à exigência regulatória.

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Expansão do escopo e os ativos afetados

A mudança não se restringe à metodologia de cálculo, mas também amplia o conjunto de ativos sujeitos a provisão. O novo padrão abarca não apenas operações de crédito tradicionais, mas também instrumentos como títulos e valores mobiliários.

Nas normas anteriores, era possível concentrar a análise na inadimplência de contratos de financiamento. Agora, mesmo ativos que apresentam riscos potenciais — como uma deterioração nas perspectivas macroeconômicas — exigem um provisionamento proporcional ao risco detectado.

Segundo Larissa Arruy, especialista do setor, essa modificação tem peso significativo, especialmente para ativos ainda solventes que, sob o novo modelo, precisam ser avaliados com mais rigor, afetando diretamente o balanço patrimonial das instituições e, consequentemente, sua política de concessão de crédito.

Além disso, essa sensibilidade aos ciclos econômicos exige que os bancos atualizem constantemente seus modelos para incorporar variáveis diversas, como nível de desemprego, atividade econômica e liquidez de mercado.

Consequências para o crédito e para os modelos bancários

A maior exigência por provisões impacta a forma como os bancos estruturam suas estratégias de crédito. Com a nova norma, operações consideradas de maior risco ficam mais caras, pressionando a seletividade dos bancos ao conceder empréstimos.

Entidades como a Associação Brasileira de Bancos (ABBC), que representa os bancos médios, afirmam que embora a elevação fosse prevista, o comportamento futuro dependerá diretamente da evolução da economia. A manutenção de um cenário com atividade aquecida, consumo sustentado e liquidez favorável tende a aliviar a pressão sobre o aumento das provisões.

Especialistas do setor indicam que, no médio prazo, o novo padrão pode contribuir para que as carteiras de crédito se tornem mais sólidas. A Febraban aponta que, após a fase de adaptação, os bancos terão condições de otimizar a modelagem dos riscos, o que pode até levar a uma diminuição do nível de provisões no futuro.

Ainda que a Febraban e a ABBC não tenham reportado impacto imediato sobre a concessão de crédito, ambas reconhecem que as instituições estão em um momento de entendimento e calibragem dos novos modelos. O impacto, portanto, tende a amadurecer ao longo do tempo.

Ajustes específicos para a realidade brasileira

Embora o IFRS 9 seja baseado em convenções internacionais, há desafios específicos no contexto brasileiro. A Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), que reúne instituições públicas e agências de fomento, já afirmou que analisa a necessidade de adaptações que respeitem características locais.

André Godoy, diretor-executivo da ABDE, reconhece a importância do alinhamento com padrões globais, mas observa que o diálogo com o Banco Central pode ser necessário caso se verifiquem distorções ou assimetrias na aplicação das normas.

O Banco Central, por sua vez, ainda não se pronunciou oficialmente sobre possíveis ajustes à regulamentação baseados nas particularidades do mercado de crédito brasileiro. Contudo, o próprio relatório de estabilidade financeira publicado em abril já indicava um impacto superior ao estimado, com aumento total de R$ 58,9 bilhões nas provisões, frente aos R$ 37,8 bilhões projetados anteriormente.

Perspectivas para o setor financeiro

Diante dessas mudanças, o sistema financeiro caminha para uma abordagem mais proativa na gestão de riscos, ainda que isso signifique um início mais conservador. Para as instituições, o período de transição funciona também como uma fase de aprendizado e refinamento.

Apesar das incertezas, a perspectiva da Febraban é de crescimento sustentável. A entidade aposta em maior resiliência do setor, com carteiras de crédito mais robustas e modelos que reflitam melhor os riscos reais, reduzindo surpresas negativas em ciclos econômicos adversos.

Com o amadurecimento dos modelos de perdas esperadas e a estabilização das ferramentas de apuração, os bancos devem ganhar maior previsibilidade nos seus resultados. A tendência é que isso contribua para fortalecer a confiança no sistema financeiro como um todo.

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