Mercado financeiro foca em Kassab mais que na dívida pública

O cenário político brasileiro tem atraído atenção redobrada do mercado financeiro nos últimos meses. Em ano de eleição municipal, decisões e articulações de bastidores contam mais do que fundamentos econômicos na formação de expectativas.

Nesse contexto, agentes do mercado têm direcionado seu foco menos para a trajetória da dívida pública e mais para figuras políticas influentes. Um nome, em especial, tornou-se referência: Gilberto Kassab, líder do PSD, cuja movimentação tem servido de termômetro informal da correlação de forças no tabuleiro eleitoral.

Peso político de Kassab no xadrez eleitoral

Gilberto Kassab, ex-prefeito de São Paulo e atual secretário de Governo e Relações Institucionais no estado paulista, tem sido visto como peça-chave nas articulações políticas. Seu partido, o PSD, tem adotado uma postura pragmática e centrada, o que atrai lideranças tanto da base aliada quanto da oposição. Com isso, tornou-se um dos principais interlocutores nas costuras de alianças para as eleições municipais de 2024.

Para investidores, as sinalizações de Kassab sobre apoios e alianças pesam significativamente. Ao antecipar movimentos políticos ou indicar possíveis vencedores nos maiores colégios eleitorais do Brasil, ele interfere diretamente na percepção de estabilidade e governabilidade futura. Dessa forma, gestores e analistas de risco ajustam suas projeções conforme o “radar Kassab” aponta.

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Menor atenção à dívida pública

Enquanto isso, a tradicional preocupação do mercado com a trajetória da dívida bruta do governo passou a ter menor prioridade nos últimos meses. Embora o nível da dívida tenha atingido 75% do PIB em 2024, dentro dos patamares que já vinham sendo considerados "novos normais" após a pandemia, não tem sido o foco primário dos gestores – pelo menos, não no curto prazo.

Esse descolamento se deve, em boa parte, à percepção de que o cenário político poderá ter maior impacto sobre as políticas fiscais futuras do que os números atuais da dívida. Em outras palavras, definir quem estará no comando após outubro influenciará mais a direção do gasto público do que discussões técnicas entre economistas.

Além disso, propostas de revisão do arcabouço fiscal ou sinais de flexibilização no cumprimento das metas passaram a ser moderadas por negociações políticas. Assim, a avaliação do risco-país tem consideravelmente mais relação hoje com composições partidárias e alianças do que com balanças públicas.

Influência sobre os mercados locais

A influência direta de Kassab se reflete de maneira ainda mais sensível nos mercados locais, sobretudo nos municípios com grande densidade eleitoral e presença de ativos públicos relevantes. Candidatos apoiados por Kassab frequentemente são vistos com bons olhos por investidores institucionais, sobretudo aqueles vinculados a fundos de infraestrutura, saneamento e mobilidade urbana.

Esse movimento ocorre também pela capacidade de articulação do PSD em viabilizar projetos de concessão e Parcerias Público-Privadas, muito utilizados em administrações municipais. Ao promover candidatos alinhados à lógica de estabilidade e negociação ampla, Kassab influencia até mesmo expectativas do mercado imobiliário e de serviços urbanos.

Articulação de alianças e o fator governabilidade

Outro fator que amplia a percepção do “radar Kassab” como um elemento relevante para o mercado é sua capacidade já testada de articulação em governos locais e estaduais. Diferente de outros líderes partidários com atuação nacional, Kassab transita com facilidade tanto no centrão quanto em setores da esquerda moderada.

Esse trânsito facilita acordos amplos e promove governabilidade, item visto como essencial para a destravamento de pautas econômicas prioritárias. O apoio do PSD tem sido buscado por candidaturas em capitais estratégicas como São Paulo, Belo Horizonte e Salvador, refletindo sua importância no equilíbrio político.

Além disso, a influência do secretário tem contribuído para decisões silenciosas, mas determinantes, como o tempo de TV nas campanhas e o fluxo de recursos dos fundos partidários – pontos que, na prática, definem a competitividade das candidaturas.

Mercado reage mais à política do que aos fundamentos

Em síntese, a conjuntura atual mostra um mercado mais sensível ao jogo político do que a fundamentos econômicos clássicos. Mudanças na trajetória da inflação, câmbio ou juros têm tido impacto momentâneo, enquanto as articulações partidárias capturam a atenção de forma mais prolongada e estruturante.

Com isso, figuras como Kassab, que transitam bem entre esferas de poder e tomadores de decisão, passam a ser mais observadas pelos investidores do que os boletins do Tesouro Nacional. Evidentemente, essa situação pode se alterar conforme o processo eleitoral avança e eventuais desequilíbrios fiscais ganhem peso, mas por ora, o "radar Kassab" segue sendo o principal indicador informal do mercado político-econômico.

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