Ações do Banco do Brasil despencam 7% com ameaças de sanções

As ações do Banco do Brasil despencaram nesta sexta-feira com a combinação de lucro abaixo do esperado e tensão crescente no cenário geopolítico. A queda revela o aumento da percepção de risco no setor bancário brasileiro em meio a pressões externas e incertezas operacionais.

O episódio levanta questionamentos sobre a capacidade das instituições financeiras em lidar com a complexidade das sanções internacionais, especialmente em um ambiente econômico fragilizado por problemas setoriais.

Forte queda nas ações diante de lucros fracos

Na reta final do pregão desta sexta-feira (16), os papéis ordinários do Banco do Brasil registraram recuo expressivo de 7,21%, sendo cotados a R$ 18,28. O desempenho negativo contrasta com o Ibovespa, que também caiu, mas em menor proporção, com perda de 0,57%, aos 132.316 pontos.

Esse movimento de desvalorização acentuada se deu sobretudo como reflexo do lucro líquido reportado em maio, de apenas R$ 500 milhões, uma redução significativa frente aos R$ 1,7 bilhão obtidos em abril. A queda abrupta indicou um enfraquecimento pontual nos resultados operacionais, mas trouxe à tona preocupações mais amplas sobre a exposição da instituição ao crédito rural.

Durante teleconferência recente, o Santander alertou para o aumento das provisões com foco no setor do agronegócio, apontando o Banco do Brasil como a instituição mais vulnerável a esse risco. Esse sinal chegou junto à notícia da saída recente do vice-presidente de agronegócio do banco, reforçando os temores de que a inadimplência no segmento esteja piorando no encerramento da safra.

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Exposição ao agro amplia vulnerabilidade

A sobrecarga das operações de crédito voltadas ao agronegócio representa hoje um dos principais pontos de atenção para analistas e investidores. O segundo trimestre é historicamente marcado pelo vencimento de empréstimos do tipo bullet — aqueles pagos em parcela única ao final do contrato — e, neste ciclo, há indícios de aumento da inadimplência entre produtores.

Pedro Gonzaga, estrategista-chefe da Mantaro Capital, observa que o "comentário do Santander sobre o agro ser um sinal ruim para o BB se mostrou verdadeiro". A sinalização aponta que o banco talvez não tivesse mapeado corretamente o nível de risco associado aos clientes do setor rural, agravando o impacto sobre os lucros mensais.

Além disso, o contexto traz à tona dúvidas sobre possíveis ações estratégicas para mitigar a exposição a esses riscos, especialmente diante da concentração acentuada da carteira nesse setor.

Entre os investidores institucionais, algumas gestoras já indicam redução na alocação em bancos. Isso se deve tanto à deterioração operacional quanto à percepção de riscos adicionais que extrapolam as métricas financeiras tradicionais.

Apreensão com possíveis sanções dos EUA

Em meio às incertezas internas, uma nova variável geopolítica adicionou volatilidade ao cenário: a ameaça das sanções americanas derivadas da Lei Magnitsky, que implicaria diretamente instituições financeiras brasileiras. A tensão se acentuou após informações de que o deputado Eduardo Bolsonaro teria solicitado formalmente ao governo americano medidas contra o ministro do STF, Alexandre de Moraes.

Segundo reportagens, representantes do Departamento de Estado dos EUA explicitaram que a eventual sanção impediria movimentações financeiras do ministro não apenas em dólares, mas também em reais. Isso dependeria da obediência dos bancos brasileiros às diretrizes americanas — um impasse que coloca os bancos em rota de colisão entre autoridades brasileiras e os órgãos reguladores dos Estados Unidos.

Um gestor ouvido sob anonimato relatou “temor de que os bancos fiquem em um fogo cruzado entre desrespeitar o STF ou o governo americano”. A frase resume a tensão institucional provocada por esse embate de proporções inéditas no sistema financeiro nacional.

Enquanto não há definições claras quanto à forma como as sanções poderiam ser aplicadas ou resistidas, cresce a aversão ao risco entre investidores, com reflexo direto nas ações de instituições com participação estatal ou exposição governamental, como o Banco do Brasil.

Clima político-econômico acirra aversão ao risco

A crescente politização do ambiente institucional tem dificultado a leitura precisa dos riscos envolvidos, principalmente para investidores estrangeiros. A eventual imposição de barreiras operacionais por exigências extraterritoriais pode reconfigurar a atuação das instituições brasileiras em mercados críticos, inclusive em suas movimentações cambiais e na relação com bancos correspondentes no exterior.

Esse componente político, ao se aliar a indicadores financeiros em deterioração, forma um cenário propício à fuga de capitais de ativos de risco no Brasil, sobretudo no setor bancário que tradicionalmente concentra fluxo defensivo em momentos de instabilidade. Contudo, neste contexto, os bancos também estão no centro da crise.

Por ora, a ausência de esclarecimentos oficiais quanto aos desdobramentos das possíveis sanções norte-americanas deixa espaço fértil para especulações que apenas ampliam o peso sobre os papéis do Banco do Brasil.

O mercado parece buscar uma reavaliação completa da tese de investimento no papel, aguardando possíveis pronunciamentos do governo federal, do Banco Central e das próprias instituições envolvidas. Até lá, o sinal de alerta permanece aceso.

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