Vinci Compass avalia compra da Verde Asset

A possível fusão entre a Verde Asset Management e a Vinci Compass pode marcar mais um capítulo na consolidação do mercado de gestoras independentes no Brasil. A aproximação ocorre em meio à retração do setor de multimercados e à busca por escala e diversificação nos negócios.

Mesmo sem acordo fechado, as negociações envolvem troca de ações, já que a Vinci tem capital aberto na Nasdaq. A movimentação também levanta questionamentos sobre o futuro de Luis Stuhlberger, ícone da gestão independente, e um possível plano sucessório.

O cenário que impulsiona a fusão

A indústria de fundos no Brasil tem enfrentado um ciclo econômico desafiador nos últimos anos. Desde 2022, os multimercados registram saídas líquidas de recursos, com destaque para os R$ 78,9 bilhões retirados apenas entre janeiro e junho de 2024. A combinação entre juros altos, novas regras tributárias e retornos abaixo do esperado reduziu o apelo desses fundos para os investidores.

Além disso, o fim do diferimento tributário sobre os fundos exclusivos — usados por famílias de alta renda — trouxe impacto direto à arrecadação das gestoras. Com isso, a consolidação do setor passou a ser uma resposta estratégica de sobrevivência e reposicionamento.

Para a Verde, esse ambiente resultou numa queda expressiva no patrimônio sob gestão: de R$ 55 bilhões em 2021 para R$ 17 bilhões atualmente. A trajetória acompanha outros movimentos similares no setor, como o da JGP e da SPX, que também reorganizaram suas operações diante do novo cenário econômico.

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Papel estratégico de Stuhlberger e sinergia com a Vinci

Luis Stuhlberger é reconhecido como uma das vozes mais respeitadas dos mercados financeiros no Brasil. À frente do fundo multimercado Verde desde 1997, ele se destacou por seu perfil de alocador, priorizando a construção de cenários macroeconômicos e estratégias de longo prazo, diferentemente de gestores com perfil mais voltado para operações de curto prazo, como Rogério Xavier (SPX) ou André Jakurski (JGP).

Com seus 70 anos, Stuhlberger pode estar organizando uma transição planejada. Um possível arranjo prevê sua permanência na estrutura por pelo menos mais cinco anos, ao lado de membros-chave de sua equipe — uma forma de assegurar continuidade na gestão e estabilidade na transição.

Para a Vinci Compass, a integração com a Verde traria mais robustez no segmento de fundos líquidos, além de diversificar seu portfólio além dos produtos alternativos. A expertise da Verde em gestão macro de longo prazo é vista como um diferencial estratégico.

Estrutura da futura sociedade

Como a Vinci Compass possui ações listadas na bolsa de tecnologia americana Nasdaq, a operação provavelmente será realizada por meio de troca de ações. Essa modelagem tem se tornado comum em fusões ou aquisições de gestoras, uma vez que oferece liquidez para os sócios e maior flexibilidade jurídica e contábil.

Daniel Goldberg, da Lumina, que em 2023 adquiriu os 25% pertencentes ao Credit Suisse na Verde, também integraria a nova sociedade e permaneceria por um período em conjunto com Stuhlberger. Isso garante a permanência de players experientes no comando da operação integrada.

A tendência de consolidação também foi vista com outras grandes casas. A JGP, por exemplo, vendeu sua área de gestão de fortunas ao BTG Pactual, enquanto a SPX desativou um de seus braços de captação institucional. Já a Gap acabou repassando seus fundos à Legacy, encerrando a atividade de gestão de terceiros.

O impacto para o investidor e o setor

Do ponto de vista do investidor, a união entre Verde e Vinci pode gerar uma oferta ampliada de estratégias, combinando alternativas ilíquidas a portfólios líquidos com histórico de desempenho consistente. Além disso, a escala obtida com a fusão pode proteger contra oscilações macroeconômicas, criando uma operadora mais resiliente.

No entanto, há desafios. O desgaste da imagem de hedge funds nos últimos anos, aliado à concorrência com produtos isentos de IR, como as debêntures incentivadas e papéis do agronegócio, ainda representa uma barreira para reconquistar o apetite do investidor pela categoria.

A expectativa é que, com a expertise combinada das duas casas, a nova estrutura tenha mais capacidade de adaptação a esse cenário. A consolidação pode ser a chave para recuperar performance e captação, além de ampliar a relevância das gestoras independentes dentro do sistema financeiro nacional.

Ao passo que gestoras emblemáticas vão redesenhando suas estratégias, a provável união entre Verde e Vinci sinaliza um novo ciclo, no qual gestão eficiente, escala operacional e planejamento sucessório tornam-se fundamentais para a sobrevivência no mercado brasileiro de fundos.

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