A comparação entre o Banco do Brasil e o Itaú Unibanco escancara duas propostas bastante distintas de gestão e entrega de resultados no mercado bancário nacional. Enquanto o Itaú abraça a previsibilidade quase cirúrgica, o BB assume a complexidade da economia local com todas as suas turbulências.
Os últimos balanços reforçam essa assimetria: o Itaú quebra recordes trimestrais, enquanto o Banco do Brasil enfrenta o desafio de recuperar fôlego após prejuízos com crédito agro e ajustes regulatórios.
O que você vai ler neste artigo:
Modelos de gestão: previsibilidade versus resiliência
O Itaú, comandado por Milton Maluhy, vem se consolidando como o exemplo mais próximo de estabilidade dentro de um ambiente naturalmente volátil como o da América Latina. A estratégia — que o próprio CEO define como “entediante” — tem apoio de um modelo de negócios perene, com foco na alta renda e controle de risco minucioso. O apelido “relógio suíço” dado por analistas surge da capacidade quase matemática do banco em entregar lucros crescentes, com destaque para os R$ 11,508 bilhões reportados no segundo trimestre de 2025, alta de 14,3% em comparação ao ano anterior.
Do outro lado, o BB enfrenta uma travessia difícil. Com receitas mais expostas ao crédito agrícola, o banco estatal viu seu lucro desabar 60% em um ano, totalizando R$ 3,784 bilhões no mesmo período. O cenário foi agravado por provisões mais robustas devido às novas regras do Banco Central e a alta de inadimplência na carteira do agronegócio, que atingiu 3,94% — maior patamar recente e bem acima dos 0,96% registrados no fim de 2023.
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O agro e seus impactos na rentabilidade
Historicamente, o Banco do Brasil sustentava sua narrativa de força na parceria com o setor agropecuário, segmento em que detém cerca de 50% de participação de mercado. No entanto, uma sucessão de eventos — da guerra na Ucrânia à revisão de regras contábeis e litígios judiciais liderados por produtores — provocou um efeito dominó negativo nas operações do banco.
Como impacto direto:
- A resolução 4.966 do Banco Central elevou as provisões em R$ 6 bilhões.
- A receita sofreu corte de R$ 2 bilhões devido às novas regras de reconhecimento.
- Cerca de R$ 37 bilhões em operações agora estão classificadas no estágio 2, impedindo o banco de continuar registrando receitas com esses contratos.
- Pelo menos 808 pedidos de recuperação judicial concentrados em grandes produtores abalaram a carteira de crédito.
Ao passo que o BB se via, até pouco tempo atrás, como o “banco do agro”, a volatilidade do setor e a agressividade de advogados em ações na Justiça passaram a comprometer sua reputação de estabilidade.
Relação com o investidor e estratégia futura
Ao contrário da comunicação contida e quase milimétrica do Itaú, o Banco do Brasil tem adotado um discurso mais emocional e voltado ao médio e longo prazo. A CEO Tarciana Medeiros afirmou que prefere “tomar decisões difíceis hoje para garantir sustentabilidade no futuro”, mesmo que isso implique menor resultado no curto prazo. Também ressaltou que o ano de 2025 será de ajuste, com expectativa de retomada da rentabilidade em 2026. Em uma mensagem direta aos acionistas, foi taxativa: “Quem tem ação do BB, mantenha; quem não tem, compre.”
A redução abrupta no payout — porcentual de lucro distribuído aos investidores — foi duramente criticada nas redes sociais, sobretudo por acionistas de varejo. A queda nos dividendos só reforçou a percepção negativa de curto prazo, ainda que o BB esteja implementando mudanças estruturais na cobrança e na formalização de garantias para mitigar o risco da inadimplência rural.
Enquanto isso, o Itaú segue em trajetória ascendente, beneficiado por sua base de clientes de alta renda, inovação digital contínua (com o lançamento recente de um superapp) e eficiência operacional que já é característica da instituição.
O termômetro do mercado: ações e percepção
O mercado tem sinalizado claramente suas preferências. Desde a posse de Tarciana Medeiros no comando do BB, as ações do banco subiram 15,3%, uma marca razoável, mas modesta frente aos 65,3% de valorização do Itaú no mesmo período. Essa diferença não é pequena — e reflete não só a entrega financeira de cada instituição, mas o sentimento de aversão ao risco por parte dos investidores em um contexto econômico regional ainda fragilizado.
O perfil mais volátil e exposto do Banco do Brasil contrasta com a previsibilidade corporativa do Itaú em quase todos os aspectos: do comportamento do lucro líquido à comunicação com o mercado. A América Latina pode ser naturalmente imprevisível, mas a busca por ativos estáveis continua sendo preferida por quem aposta no longo prazo.
Além do lucro: reputação e adaptabilidade no radar
A realidade é que ambos os bancos operam sob pressões distintas. O BB precisa lidar com mudanças regulatórias, riscos jurídicos e ciclos políticos que reduzem a previsibilidade de sua gestão. O Itaú, por outro lado, colhe os frutos de uma estrutura desenhada para manter a estabilidade, ainda que aposte com mais cautela em segmentos como o de baixa renda.
Internamente, o BB começa a mudar sua postura. A tradicional leniência com o agronegócio está sendo substituída por maior disposição para judicializar dívidas e executar garantias. Estas medidas, somadas à busca por alienações fiduciárias em vez de hipotecas ou penhores, indicam uma ruptura — mesmo que tardia — com o passado de tolerância em nome da relação.
Enquanto isso, o Itaú segue em trajetória previsível, investindo em tecnologia, fortalecendo seu branding como banco premium e garantindo retornos que tranquilizam investidores, tanto institucionais quanto de varejo.
Em uma economia que não é a Suíça, a gestão “suíça” tem conquistado o coração dos investidores. Mas o “banco com emoção”, como define seu próprio VP, pode voltar a surpreender — desde que execute de fato seu plano de ajuste com disciplina e resiliência.
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