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BC avalia eficácia dos juros altos para conter a inflação

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BC avalia eficácia dos juros altos para conter a inflação — Banco Central reforça cautela sobre juros altos e avalia sua eficácia no controle da inflação e no enfraquecimento do crédito.

Os sinais de que a política monetária está surtindo efeito começam a ganhar força nos documentos do Banco Central. Embora ainda mantenha sua postura conservadora, a autoridade monetária já reconhece impactos relevantes na atividade e no crédito.

A avaliação é de que o atual nível elevado da Selic, mantida em 15%, freou a economia o suficiente para começar a reduzir as pressões inflacionárias, abrindo espaço para uma possível flexibilização futura.

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Reconhecimento da eficácia dos juros altos

Na recente ata do Comitê de Política Monetária (Copom), o Banco Central reforçou seu tom cauteloso em relação à condução da política monetária, mas introduziu observações importantes sobre os efeitos reais das elevadas taxas de juros. Entre os destaques do documento, está o reconhecimento explícito de que o mercado de crédito tem perdido ímpeto, reflexo direto do atual patamar da taxa Selic.

O economista-chefe da AZ Quest, André Muller, destaca que esse reconhecimento representa um ponto de virada no discurso do BC. Segundo ele, o ambiente em que a inflação persistia mesmo com sucessivas altas dos juros foi superado, o que indica que as amarras monetárias passaram a ser mais eficazes.

Ainda que o BC não tenha sinalizado mudanças imediatas, o entendimento de que a atividade econômica começa a se desacelerar tem peso nas futuras decisões. Mesmo sem respostas urgentes, o esfriamento do crédito e da demanda reforça uma possível revisão do ciclo de aperto monetário nos próximos trimestres.

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Quadro macroeconômico mais favorável à desinflação

Outro ponto analisado por Muller diz respeito à moderação da atividade econômica como um todo. Segundo ele, há uma tendência clara de enfraquecimento do consumo, que deve se intensificar ao longo de 2025, impactando também o mercado de trabalho — e, por consequência, potencializando o processo de desinflação.

O cenário externo também pode colaborar nesse processo. Muller acredita que as tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil podem atuar como fator desinflacionário, a depender de como impactarem diretamente os preços de bens e alimentos. Já se observa, inclusive, algum alívio nos preços dos alimentos, possivelmente antecipando esse movimento.

Ainda assim, o economista pondera que o ambiente internacional permanece incerto. O BC, nesse sentido, adota postura prudente ao não incorporar prematuramente tais expectativas na sua estratégia, mantendo-se atento aos desdobramentos externos antes de fazer ajustes mais amplos na política de juros.

Riscos fiscais e impacto nas expectativas

Apesar da sinalização positiva de que os juros já produzem os efeitos esperados, Muller ressalta que o avanço em direção a cortes será limitado caso surjam pressões vindas do lado fiscal. A política fiscal ou parafiscal, caso venha a estimular demais a economia, pode reverter parte do esforço na contenção da inflação, segundo o economista.

O compromisso fiscal, portanto, ainda é peça central nesse xadrez. Qualquer movimento que sinalize deterioração das contas públicas ou aumento expressivo da demanda agregada pode respingar negativamente nas expectativas de inflação, atrasando a queda sustentável da Selic.

Muller afirma que, para haver espaço para uma política monetária mais flexível, será necessário manter a âncora fiscal firme e evitar estímulos no curto prazo, especialmente no ano eleitoral, onde tradicionalmente há aumento de gastos. A credibilidade das medidas fiscais será, portanto, fator-chave no ritmo e intensidade dos cortes de juros ao longo do próximo ciclo.

Projeções para a Selic e realinhamento do juro neutro

De acordo com a AZ Quest, o atual cenário base aponta para uma redução de 15% para 10,50% na taxa Selic até 2026. A estimativa contrasta com a mediana registrada no Relatório Focus, que ainda projeta uma Selic de aproximadamente 12,50% no mesmo período.

Segundo Muller, mesmo com esse corte, a taxa real ainda continuaria em um patamar elevado quando comparada com os padrões históricos. A diferença está no fato de que, com as expectativas de inflação mais próximas de 4%, a Selic a 10,50% passaria a se aproximar da chamada taxa neutra — aquela que não gera nem estímulo nem repressão à economia.

Esse movimento dependerá, contudo, de uma normalização sustentável da inflação. Caso os índices continuem convergindo para a meta de 3%, e sem choques relevantes, o BC poderá acelerar esse processo, promovendo cortes mais intensos do que os projetados até agora pelos economistas do mercado.

Considerações finais

As entrelinhas da última ata do Copom indicam que o Banco Central já enxerga com mais clareza os efeitos da política monetária restritiva adotada nos últimos ciclos. Embora mantenha um tom de prudência, o reconhecimento da desaceleração do crédito e da atividade econômica abre espaço para um debate mais firme sobre a flexibilização da Selic.

No entanto, esse caminho ainda exige estabilidade fiscal e controle contínuo das expectativas. A trajetória da política monetária dependerá também do ambiente externo e das variáveis políticas internas, que seguirão influenciando o horizonte inflacionário e, por consequência, o ritmo dos cortes de juros.

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