Início » Risco à política monetária com mudanças no Departamento do Trabalho dos EUA

Risco à política monetária com mudanças no Departamento do Trabalho dos EUA

Publicado em
Risco à política monetária com mudanças no Departamento do Trabalho dos EUA — Alterações no Departamento do Trabalho dos EUA podem impactar a política monetária, estabilidade financeira e economia.

Mudanças recentes no Bureau of Labor Statistics (BLS), o Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA, acendem um alerta no mercado financeiro. A demissão de Erika McEntarfer, então chefe de pesquisas da entidade, levanta preocupações sobre a integridade na coleta de dados econômicos.

Segundo alerta do economista-chefe do J.P. Morgan, Michael Feroli, essa troca pode comprometer a qualidade de dados fundamentais para decisões de política monetária do Federal Reserve.

Inscreva-se em nossa newsletter

Receba gratuitamente dicas, notícias e conteúdos exclusivos para transformar sua vida financeira.

*Ao enviar os dados você concorda com a nossa Política de Privacidade e aceita receber informações adicionais.

Fragilidade nos dados econômicos

A saída surpresa de McEntarfer ocorreu em um momento crítico, às vésperas da divulgação do índice de preços ao consumidor (CPI) de julho. A falta de uma substituição imediata eleva os riscos de descontinuidade e abre margem para questionamentos sobre a precisão dos indicadores — fundamentais para a condução do juro nos EUA. Para Feroli, decisões monetárias baseadas em dados instáveis colocam em risco tanto o “pouso suave” desejado pelo Fed quanto a estabilidade financeira nacional.

Em sua nota enviada a clientes, o economista alerta: “ter um painel de instrumentos com falhas pode ser tão perigoso quanto ter um piloto obedientemente partidário”, colocando na balança tanto a técnica quanto a isenção política na produção estatística. A analogia alude diretamente ao receio de interferência política crescente em instituições supostamente técnicas.

Quer impactar quem entende de finanças?

Divulgue sua marca em um site focado em finanças, investimentos e poder de compra.

Riscos à credibilidade dos indicadores

Mesmo com o avanço de tecnologias de big data e a oferta de dados alternativos pelo setor privado, Feroli destaca que esses recursos não substituem os dados federais. De acordo com ele, indicadores privados padecem de representatividade nacionale podem sofrer distorções provocadas por pequenas variações no mercado de coleta. Essa fragilidade os torna menos confiáveis, particularmente quando se busca um retrato preciso do cenário macroeconômico norte-americano.

A desconfiança se estende também aos dados de inflação. Os títulos TIPS (Treasury Inflation-Protected Securities), com um valor de mercado em torno de US$ 2,1 trilhões, são diretamente indexados ao CPI calculado pelo BLS. Qualquer mudança técnica — mesmo as aparentemente neutras — pode ter impacto bilionário. Um exemplo citado por Feroli é a hipótese de adoção do conceito europeu de inflação harmonizada (HICP), que implicaria em uma redução de cerca de 20 pontos-base na inflação anual apurada nos EUA.

Comparações e impactos políticos

Feroli ainda compara o impacto desta saída no BLS com a renúncia da diretora do Federal Reserve, Adriana Kugler. Segundo ele, a saída de Kugler já era esperada, devido ao fim do seu mandato em janeiro do próximo ano. Além disso, o processo para sua substituição já havia começado. Por outro lado, a mudança no BLS afeta diretamente o fluxo e a confiabilidade imediata dos dados mais sensíveis à formulação de políticas econômicas.

Outro ponto preocupante é o risco de politização na coleta de dados públicos, o que pode ferir a confiança de investidores, formuladores de políticas e parceiros internacionais. Tradicionalmente vistas como neutras, as instituições que fornecem estatísticas para norte-americanos e estrangeiros passam a operar sob uma nova sombra, em meio à crescente polarização nos EUA.

Potenciais consequências para o Fed e os mercados

Com base nessas preocupações, aumenta a possibilidade de o Federal Reserve precisar recorrer a dados alternativos, como indicam analistas do TD Securities. Entretanto, essa dependeria de fontes fragmentadas e menos robustas, o que implica maior volatilidade na leitura do ambiente econômico por parte dos formuladores de política. Investidores também podem reagir com mais cautela, já que a previsibilidade sobre as decisões do Fed ficaria comprometida.

A relação de confiança entre mercado e governo norte-americano, que depende do rigor técnico dos dados divulgados, pode ser abalada. A substituição repentina de figuras chave na estrutura do BLS é mais que uma reorganização administrativa: representa um possível ponto de inflexão na forma como a economia americana é mensurada e interpretada.

Leia também:

Publicações Relacionadas

Ao continuar a usar nosso site, você concorda com a coleta, uso e divulgação de suas informações pessoais de acordo com nossa Política de Privacidade. Aceito